.Cyclope.

Cyclope é um boneco gigante, um ser do imaginário  fantástico e  mitológico. Com apenas um olho, o gigante imortal tudo vê, no passado e no futuro, no aqui e no alí, sua visão onipresente contrasta com sua personalidade quase humana, quase mito.

 

Construído em fibra de vidro, Cyclope foi criado por End Drummond e Tiago Almeida, produzido por Iasmim Marques. Cyclope viaja por cidades sempre em busca de novos olhares ao participar de festivais, feiras, festas e eventos.

 

Para convidar Cyclope para sua cidade entre em contato pelo e-mail grupogirino@gmail.com


Ciclopes pertencem à primeira geração divina, a dos Gigantes.
Só tem um olho no meio da testa e distinguem-se pela força e pela
habilidade manual […] e tem tendências antropófagas.

Ruth Guimarães, Dicionário da Mitologia, Cultrix, p. 86

 

Cyclope é um boneco habitável de cerca de três metros de altura, remete ao ser mitológico Ciclope, gigante de um olho só que possui uma forma característica de se relacionar com que o que vê e o que está sendo visto. O olhar é uma relação dúbia para o Cyclope, espécie de olho onipresente, ânsia do ver, do olhar que pousa sobre a composição que ele próprio compõe ao doar sua absurda imagem à paisagem urbana.

Olho você me olhando: meu olho.
Yvan Goll, “Oeil”, In: Les cercles magiques, p. 41.

 

“Cyclope: O Olhar do Devaneio” é uma proposta de intervenção cênica no cotidiano urbano das ruas ou espaços públicos. Suas falas são anunciadas pelo manipulador de dentro do boneco e projetadas por megafone, remetem às questões do devaneio e as inter-relações humanas. Com um repertório temático, de falas e citações, Cyclope interage com passantes desavisados e com o espaço público de habitantes transitórios.

 

O devaneio é esse estado simples em que a obra tira de si mesma
suas convicções, sem estar atormentada por censuras.

Gaston Bachelard, A Poética do Devaneio, Martins Fontes, p.154.

 

Sua personalidade onírica, reflexões críticas e citações de efeito são baseadas na obra fenomenológica “A Poética do Devaneio” de Gaston Bachelard. Obra fundamental para os devaneios sonhados, imaginados e idealizados, Bachelard propõe um olhar poético acerca dos devaneios cotidianos e a vivência poética de pequenos devaneios críticos, analíticos e reflexivos.

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pois assim é a poesia:
esta chama tão distante
mas tão perto de estar fria.

Cacaso[ Antônio Carlos de Brito].
Segunda classe. In:  Lero-lero, Cosac &Naify, p. 92.

 

A palavra para Cyclope é uma extensão da projeção de seu olhar, a palavra é projetada, também, para ser vista. Diálogos com o público são uma experiência do olhar da descoberta, sua própria presença é um rasgo no cotidiano comum das relações inter e impessoais.

 

No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento.
ALAIN BOSQUET, Premier poème

 

Como boneco, Cyclope é passível de manipulação, sua performance se dá através de uma relação habitável, o performer habita o ser, se constitui dele, se mascara. É sua alma interior e que se relaciona com o outro externo. A manipulação de um boneco é algo anímico, “anima” é a possibilidade de animar, dar vida, contemplando a idéia de ânima, alma.

 

 

Refere-se a animação, de animar o inanimado, de dar ou despertar
vida na forma aparentemente morta ou inerte, além de trazer
implícita a idéia de dialogação entre forma, matéria e seu
animador. Ator/animador sintetiza o trabalho do artista que
projeta a realidade da personagem sobre um corpo que não é o seu,
tornando essa realidade crível.
Teatro de bonecos: transformações na poética da linguagem.
Valmor Beltrame, Kátia de Arruda. Revista MÓIN-MÓIN. Jaraguá do Sul.
SCAR/UDESC. 2005. v.1.

 

 

Assim, “Cyclope: O Olhar do Devaneio” pode ser entendido como uma performance de rua, uma intervenção cênica interativa. Através de técnicas de manipulação de boneco gigante habitável e projeção de voz por megafone, o espetáculo se constitui em animar o onírico de um ser mitológico, um devaneio poético e cênico.

 

O devaneio está sob o signo da anima.
Quando o devaneio é realmente profundo,
o ente que vem sonhar em nós é a nossa anima.[…]

O davaneio sobre o devaneio vem a ser precisamente uma fenomenologia da anima,
e é coordenando devaneios de devaneios
que ele espera constituir uma “Poética do devaneio”.
Noutros termos: a poética do devaneio é uma poética da anima.
Gaston Bachelard, A Poética do Devaneio, Martins Fontes, p.59.

 


Uma palavra circula na sombra
e faz inflar as cortinas.

Louis Émié, Le nom du feu, Gallimard, p. 35.

O homem solitário possui diretamente os mundos por ele sonhados.
Para duvidar dos mundos do devaneio, seria preciso não sonhar,
seria preciso sair do devaneio. O homem do devaneio e o mundo do seu devaneio
estão muito próximos, tocam-se, compenetram-se.
Estão no mesmo plano de ser; se for necessário ligar o ser do homem
ao ser do mundo, o cogito do devaneio há de enunciar-se assim:
eu sonho o mundo; logo,  o mundo existe tal como eu o sonho.

Gaston Bachelard, A Poética do Devaneio, Martins Fontes, p.152.

 

 

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